terça-feira, 13 de julho de 2010

Webber e Vettel: reflexo e identificação

O GP da Inglaterra deu mais dicas do que nunca à cúpula da Red Bull, e aos adversários, de como funciona o canguru mais famoso da F1.

Mark Webber mais uma vez foi brilhante, irretocável, inabalável, pilotou como um verdadeiro campeão, coisa que Jenson Button, mesmo com um carro quase tão dominante quanto o RB6, não demonstrou em 2009 com a Brawn GP.

Como já estão todos cansados de saber, Mark Webber é assim, 8 ou 80. Não tem meio termo com o australiano. Ou ele está para Nigel Mansell e a Williams de outro mundo circa 1992 ou está para um dentre as dezenas de japoneses que fizeram lambança na F1.

O mais curioso é que Vettel também é assim. Dificilmente se vê o alemãozinho no meio termo, em cima do muro. Ou é nocaute no primeiro assalto ou é desclassificação por WO.

Quanto mais nervoso Vettel fica, quanto mais "faca nos dentes" ele está, mais Webber se supera. O simples sucesso de Webber parece desestabilizar Vettel de uma forma tal que o pobre menino de apenas 23 anos não consegue suportar. Faz lambança de verdade, lambança de gente grande.

Por outro lado, o sucesso de Vettel não desestabiliza Webber, mas tampouco o faz brilhar. Parece que em determinados momentos, um espírito medíocre baixa no velho Mark, fazendo com que ele não seja muito diferente de qualquer outro dos trocentos pilotos que já entraram na F1.

E geralmente, quando esse espírito aparece, é Vettel quem está brilhando lá na frente. Parece haver um nexo causal em tudo isso, uma relação de causa e efeito lógica, sequencial, inexorável.

Desequilíbrio: o sucesso de Webber é a decadência de Vettel

Observar a dupla da Red Bull é quase tão fascinante quanto observar Senna e Prost na McLaren de 1988 e 89. Mansell e Piquet em 1987. Alonso e Hamilton em 2007. Existe um componente humano incrivelmente imprevisível e atraente na relação de ambos que faz o campeonato de 2010 estar rapidamente se tornando um clássico acima de qualquer crítica.


O esporte é assim. A tendência de quem acompanha os esportes é de apoiar os underdogs, ou aqueles que têm menos chances de ganhar. O comportamento da Red Bull continua fazendo com que a simpatia geral em relação Mark Webber seja cada vez maior, um piloto que até dois anos atrás era um zé-ninguém na categoria.

Hoje, centenas de fóruns, enquetes, sites buscam apoiar o velho veterano contra a jovem promessa que, desde que venceu o molhado GP da Itália em 2008 magistralmente a bordo de uma Toro Rosso, perdeu muitos fãs e muito da empatia que Lewis Hamilton ainda hoje tem.

Há uma pitada de cretinice no comportamento de Sebastian Vettel que em muito lembra o de Michael Schumacher, e é esse comportamento, aliado a uma equipe que não consegue gerenciar seu próprio sucesso, que faz com que Mark Webber esteja mais perto do que nunca de ser campeão mundial de F1.

A Red Bull mexe todos os pauzinhos para ver Vettel campeão, mas cada pauzinho tirado do lugar é um sopro a mais de força e motivação para Mark Webber, que parece mais centrado do que nunca em mostrar à equipe que o projetou que ele vale a pena tanto quanto seu mimado companheiro.

A luta de Mark Webber é a luta de várias pessoas contra o corporativismo enojante que impregna nosso sistema capitalista. É a luta de cada um pela simples e eficiente meritocracia e a igualdade de condições em casa, no trabalho, na vida. Uma luta injusta, mas genuína, autêntica. Uma luta nobre.

O fã da F1 se vê mais na pele de Webber de que de Vettel. A maioria se identifica com as situações difíceis e adversas, pois é contra elas que todos têm de se rebelar todo dia. E quem diria que, entre duplas improváveis como Hamilton e Button, Alonso e Massa, Schumacher e Rosberg, as atenções se virariam para a insossa dupla Vettel e Webber.

É claro que em parte porque pilotam o melhor carro do grid, mas também em parte porque é uma dupla passional, explosiva, forte. Humana enfim.

6 comentários:

Speedblog disse...

O próprio Webber declarou desconfiança sobre a harmonia insossa entre Hamilton e Button. O australiano podia muito bem estar secando a McLaren, mas sabe a rivalidade e a tensão que separa companheiros de equipe. A McLaren se esforça e insiste na suposta amizade entre a dupla e acredito que ao público isso pouco importa. O acidente na Turquia ilustrou em tons obscuros que a competitividade entre team-mates pode ir longe, longe até ser negativa para a própria equipe. A dupla segue tornando a F1 mais emocionante.

Gabriel Pogetti Junqueira disse...

Parabéns pelo texto...
muito legal qndo compara webber ao papel de cada um de nos dentro da nossa sociedade atual...
é dificil n se identidficar com o veterano em algum momento de nossas vidas

Will disse...

Mesmo vendo o Vettel como um 'pré-Schumacher', não podemos deixar de lembrar que o Webber nunca se notabilizou por humildade. A coluna semanal (?) que ele escreve é prova disso, mesmo tendo uma carreira recheada de erros (como o de Valência), nunca foi chegado a um 'mea culpa'.

Mesmo assim, um belo post. O trecho: "A luta de Mark Webber é a luta de várias pessoas contra o corporativismo enojante que impregna nosso sistema capitalista.", me lembrou 'O Capital'.

Vitor, o de Recife disse...

"E quem diria que, entre duplas improváveis como Hamilton e Button, Alonso e Massa, Schumacher e Rosberg, as atenções se virariam para a insossa dupla Vettel e Webber."

Perfeito!! Por outro lado, também é surpreendente como a dupla da McLaren trabalha bem, sem que o sucesso de um implique significativamente no afundamento com companheiro.

Por isso não acredito no título da mal gerenciada Red Bull.

Paulinho disse...

A tempos não via uma relação tão nojenta na F1 como Hemult Marko e Sebastian Vettel. De uma forma estranha me faz lembrar a relação entre Jean Toad e Schumacher, porém sem 1/10 do brilho e competência da mesma. Acho que a Fórmula 1 desde os anos 90 se firmou como uma cagtegoria onde as nacionalidades germânicas e britânicas são amplamente favorecidas, talvez pelo forte retorno comercial que o esporte tem em alguns destes países. Parabéns Dan Dan, excelente texto.

Daniel Gomes disse...

PMeyge, o Schumacher fez com que a F1 explodisse de vez na Alemanha, então o Vettel é um produto natural dessa explosão.

Já a Inglaterra é o PAÍS da F1. Nada mais natural que tudo que venha de lá seja incensado, vide Hamilton, Button, Hill, Mansell, e até os pilotos menos conhecidos, como o Anthony Davidson, que é muito famoso e querido na terra da Rainha.