sexta-feira, 4 de setembro de 2009

F1: o controle do medo

O Splash-and-go traz a você uma reflexão sobre o que é pilotar um carro de F1.

Caso uma pessoa comum, como você, leitor, se sentasse dentro do cockpit de um F1 para correr em uma pista relativamente simples como Monza, por exemplo, a quantos segundos você acha que ficaria de um piloto da estatura de Kimi Raikkonen?

Obviamente essa é uma pergunta que nunca terá resposta. E justamente por não ter resposta que o cidadão comum se vê no direito de criticar pilotos como Alex Yoong, Yuji Ide, Ricardo Rosset, Rubens Barrichello, Luca Badoer... e a lista é enorme.

Pilotando uma Renault R25

Antes de dar prosseguimento ao texto, assista ao vídeo abaixo de um episódio do programa britânico de TV Top Gear, no qual Richard Hammond, apresentador e piloto treinado, dirige, na ordem, um Formula Renault, um carro da Renault World Series e, finalmente, um Renault R25, carro este que levou Fernando Alonso ao campeonato mundial em 2005.



No vídeo, Hammond explica didaticamente o quão espetacular é um carro de F1 comparado com seus irmãos menores e com carros esporte de alta performance como o Bugatti Veyron, o carro mais rápido do mundo.

Para se ter uma ideia, no decorrer do dia, quando Hammond já se acostumava com o segundo carro mais potente dos três, da World Series, o apresentador teve de abortar sua escalada porque, caso continuasse, seu pescoço não aguentaria o tranco para pilotar um F1, o que viria logo em seguida.

Quando senta no carro, mesmo com toda a explicação técnica e o treinamento como piloto, Hammond simplesmente não consegue engatar a primeira marcha do carro, ativando o famoso anti-stall, que tantas vezes deixou Rubinho na mão este ano.

O apresentador mal consegue dar duas voltas na pista de testes (roda várias vezes), e também fica muito longe de alcançar a janela de temperatura funcional, tanto dos pneus quanto dos freios.

Além de não ter o preparo físico para passar de curva em curva, mesmo em uma baixa velocidade, Hammond não consegue pensar rápido o suficiente para controlar o carro quando uma curva se aproxima. Ou seja, os reflexos são muito lentos e ele é uma pessoa treinada.

A velocidade e o poder do carro são descomunais até para um piloto treinado. O que dirá para uma pessoa comum.

Injustiça

Essa é uma das razões pela qual Rubens Barrichello sempre se indignou pelas críticas que recebeu. A capacidade do torcedor comum subestimar o trabalho absurdo de um piloto de F1 é infinita.

Aquelas pessoas metidas a piloto profissional que entram no seu Palio 1.0 e dirigem loucamente pelas estradas colocando em risco a sua vida e a dos outros não têm nem nunca terão a idéia do que é colocar um carro no limite.

Dirigir rápido é fácil, mas superar a capacidade do carro e fazer isso de forma a percorrer uma reta, uma curva, um S o mais veloz possível usando todo poder, cavalagem e torque de um veículo é coisa para poucos.

Para quase todo mundo, não é uma questão de quão rápido você conseguiria guiar um F1, mas sim o quão rápido você teria coragem de guiá-lo. O medo iria conter as pessoas muito antes de elas chegarem perto do que são capazes.

Barrichello participa de corrida com jornalistas em kartódromo paulista

Em um evento de kart para jornalistas, Rubens Barrichello disse: “Não tenho uma relação ruim [com a imprensa], pois acho que não dá para ter uma idolatria. O jornalista tem o papel dele, e tem que ser assim mesmo. Mas o fato é que eu queria mostrar o quanto é difícil guiar com velocidade, porque dirigir normal é uma coisa, mas guiar com força não é fácil".

O carro de F1, além do tremendo poder, tem aderência por princípios aerodinâmicos. A mesma dinâmica que permite com que um avião saia do chão prende o carro de F1 no chão.

Embora compreendamos a física envolvida, por vezes é difícil conceber que um monstro de dezenas de toneladas como um avião sai do chão e se mantém no céu. Quem já viu decolagens de perto sabe da tremenda dificuldade de um pesado objeto como esse vencer a resistência do ar e usá-lo a seu favor.

Agora imagine você sentado dentro de um veículo a cinco centímetros do chão, onde a sensação de velocidade é pelo menos três vezes maior do que num veículo normal, que acelera de 0 a 100 km/h em menos de quatro segundos e freia de 100 a 0 em menos tempo ainda e alcança velocidades de até 380 km/h.

Não é fácil imaginar, mas assistindo a imagens de corrida em Silverstone, que é uma pista com muitas curvas de alta velocidade, fica mais plausível apreciar a tremenda rapidez com que os pilotos tomam cada curva, no limite da aerodinâmica.



É uma questão de confiança. De confiar que as leis da física funcionarão e que você poderá fazer a curva na máxima velocidade sem se matar no muro. A mesma confiança que muitas pessoas não têm ao voarem de avião. O controle desse medo e a vontade de ultrapassar o limite do carro e da pista é que separa pessoas como Kimi Raikkonen e Rubens Barrichello de nós, meros mortais.

E a confiança há de ser total, porque foram falhas assim que mataram pilotos como Ayrton Senna, Roland Raztemberger e quase tiraram a vida do piloto britânico Ralph Firman em uma Jordan nos treinos do GP da Hungria de 2003.



Repare no vídeo que sua asa traseira vai embora e o carro vira praticamente um avião, não alçando vôo por muito pouco. Foi exatamente assim que Ratzemberger morreu, embora não haja imagens diretas da asa se soltando de sua Simtek.

Exclusividade

Guardadas as devidas proporções, a porcentagem da população mundial que chegou à F1 corresponde a 0,00000000033846153846 %, sem contar pilotos de testes.

É claro que essa fração é incompreensível porque foge da escala das coisas que uma pessoa normal consegue apreender conscientemente, mas é o símbolo do quão difícil e exclusivo é esse esporte.

E é por isso que permanecer por 17 anos consecutivos na categoria é um mérito tão significativo quanto ser campeão em uma com o melhor carro e a equipe trabalhando para você (alguém se lembrou de Jacques Villeneuve?).

Look how Bad you are

Tudo isso leva este blog a repudiar o extremo desrespeito, não só de fãs, mas de muitos blogueiros, jornalistas e os próprios companheiros de pista em relação a Luca Badoer, que decepcionou na Ferrari. Mas decepcionou por que?

Depois de começar a realmente apreciar o quão incrível é um piloto de F1, fica mais fácil, primeiro, compreender porque Luca Badoer não conseguiu ser competitivo e, segundo, respeitá-lo e admirá-lo por se achar capaz do feito e ter a coragem de tentar.

Embora não seja explícito, o italiano deu um grande salto de qualidade entre Valência e Bélgica, e sua curva de melhora certamente continuaria a se elevar, não fosse o prazo exíguo para que isso ocorresse.

A questão é, Badoer que foi mal ou as pessoas subestimaram o que é pilotar um F1? Todo o contexto colocado neste post leva o autor deste blog a acreditar que Michael Schumacher seria um fracasso redundante, embora talvez meio segundo mais rápido que Badoer. Mas nunca competitivo.

Especulações à parte, tanto na corrida de Valência como na Bélgica, as voltas mais rápidas de Badoer foram mais rápidas do que as voltas mais rápidas de Sébastien Buemi e Jaime Alguersuari (no GP da Europa) e de Jarno Trulli (no GP da Bélgica).

O que isso quer dizer? No contexto geral Badoer sempre foi muito mais lento, principalmente pilotando uma Ferrari, mas sua performance, incluindo melhores tempos da corrida no primeiro setor de Spa em voltas consecutivas, demonstra claramente que o desenvolvimento do piloto ocorreria de uma maneira ou de outra. Ele apenas precisaria de tempo, coisa que não tinha.

Enfim, é tempo de compreender o que significa ser piloto de F1, algo tão cobiçado, admirado, sonhado e, ao mesmo tempo, por isso mesmo, tão criticado e invejado.

E você? Consegue admirar e respeitar quem chega na F1, sejam “pay drivers” ou não?

7 comentários:

Ron Groo disse...

A indignação do Barricas é puro recalque de saber que não faz tão bem seu oficio.

O que ele esperava dos torcedores? Admiração inconteste?

Não é fácil pilotar seja lá o que for, de carros a fogões, mas que o faz deve saber engolir as criticas e seguir em frente - goin on.

Belo texto.

Julio Cezar disse...

Também queria pilotar um F1 antes de morrer. Existem na Europa alguns que compram carros de equipes que não existem mais, como Jordan, Forti Corse e Arrows.

Agora, depois de ver o vídeo, confesso que fiquei com medo. Não de me arrebentar num possível acidente, mas de não poder ter a performance que gostaria de alcançar, para alguém que não é piloto.

Se puder andar 10% do que o carro permite, estarei feliz da vida. Mas, para isso, preciso me preparar. Pra início de conversa, perder uns 18 Kg e preparar braço e pescoço. Comprar um Kart também é uma boa.

Mas falando da performance do Luca Badoer, Michael Schumacher já previa que aconteceria a mesma coisa caso voltasse a um Grande Prêmio, e jogou a batata quente para o italiano.

Foi perceptível o ganho de performance de Badoer, mas ainda estava bem longe do esperado de um piloto da Ferrari. Era questão de tempo para emparelhar com os outros, questão de uma temporada inteira ou dois terços.

Fiquei muito desconfiado desse anúncio da volta de Schumacher. Ele mesmo largou a Fórmula 1 quando percebeu que seu conhecimento, tanto de pilotagem quanto de acerto de carro já não era mais suficiente para ganhar dos mais novos. Ou seja, depois de perder dois campeonatos para o, na época, moleque chamado Fernando Alonso, viu que era hora de parar. A sorte do alemão é que ele desistiu logo de voltar à F1. Seria um vexame histórico.

Atualmente, com a perda da capacidade aerodinâmica, apesar dos pneus sem sulcos, além da diminuição da influência da eletrônica, a pilotagem é muito mais técnica. Qualquer um que tenha parado há uns cinco anos e de repente resolva voltar irá sofrer bastante. Foi exatamente o caso de Badoer.

Sobre Barrichello, não é uma questão de ridicularizá-lo por não saber como é realizar a proeza de guiar um F1, mas dele sempre falar pelos cotovelos. No início da temporada, falava que seria campeão e tudo mais. Com as seis vitórias do Button, teve que aguentar. Agora, existem chances, remotas, sim, mas se falhar novamente, as piadas dos brasileiros ainda continuarão.

Daniel Gomes disse...

Ron, nem tanto ao céu, nem tanto à terra.

Não existe admiração incondicional, mas uma coisa é criticar, a outra é deliberadamente não apoiar, ridicularizar, enfim, com o intuito puro e simples de destruir.

Nada do que for dito vai mudar o passado lamentável em muitos aspectos (e incrível em outros) de Barrichello, mas creio que entender o que ele e outros fazem é um começo para uma relação mais neutra e amistosa.

É interessante vc dizer que o Rubens "não faz tão bem seu ofício", principalmente quando temos como comparação mais óbvia e imediata o maior piloto da história.

Desse modo, acho que talvez apenas Raikkonen e Alonso, desde Mika Hakkinen, façam "muito bem" seu ofício. O resto é grid filler.

Mas eu realmente não acredito nisso.

Daniel Gomes disse...

Julio, eu não acredito que Schumacher largou a F1 de fato por não se achar competitivo (caramba, ele realmente ACREDITOU que seria competitivo nesse retorno triunfal pós-Felipe Massa)...

Na realidade, o que ocorre pra mim é que Schumacher não gostou de perder. E ele tinha algum palpite de que a Ferrari não seria um carro vencedor em 2007 (o que de fato foi verdade).

É claro que Schumacher já sabia que Alonso ia pra McLaren e ele tb sabia que a Ferrari poderia ou não poderia dominar.

Some-se isso ao fato de ele ter perdido o título em 2006 simplesmente porque a Renault foi melhor no início do ano, aí foi o golpe final para ele.

Basta ver os resultados de Barrichello na Ferrari em 2006 (um péssimo oitavo lugar no campeonato) para saber que realmente a Ferrari estava uma carroça total, mesmo que Rubinho já estivesse desmotivado.

Mas é fato que pilotar na F1 hoje não é bolinho e, como vc falou, as pessoas normais, ou teriam medo, ou ficariam tremendamente frustradas por não conseguirem fazer nada com o carro sob elas.

É uma questão muito interessante e diz muito sobre nós, seres humanos. E é mais interessante que vc ficaria frustrado pq vc SUBESTIMA o que é pilotar um carro de F1. Acha que é tranquilo, basta treinar e saber a pista.

Não é, na verdade nunca foi. E agora, menos ainda.

Felipe Maciel disse...

Cara, que vídeo interessante, nunca tinha visto. Confesso que também não lembrava do acidente do Firman, eita pancão...
E no vídeo do Kimi, caramba, que volta(!), até o Ron Dennis riu!

Você tem toda a razão. Uma vez eu disse na rádio que são todos gênios na F-1, e que Schumacher conseguia ser mais gênio que os demais gênios. Isso é o que realmente impressionava.

Quando falamos mal de um piloto, não significa que ele não seja genial, mas sim que dentre o grupo de gênios que compõem o grid, sua genialidade não é suficiente.

Também acho uma pena o Badoer não ter tido tempo para provar seu valor e chegar ao menos em seu primeiro pontinho. Ele não é ruim, ele está ruim. Caso contrário, não teria realizado tantas corridas anteriormente, nem trabalharia como test driver da Ferrari por tanto tempo.

Thiago Crivellaro disse...

O que caracteriza o questionamento de Luca Badoer não é só o fato de ele ser um piloto ruim (o que não é, já que foi piloto de teste durante muito tempo), mas também pela sua própria falta de tato de ter aceitado o desafio.

É óbvio que o ser humano gosta de desafios, faz parte dele quebrar obstáculos. Contudo, tanto Badoer quanto Schumacher não mediram realmente as consequências de suas palavras (ou atos). Se não estão em forma para tal desafio simplesmente não corram. Eles aceitaram de boa fé, mas sem preparo algum.

Neste caso, a culpa também é da Ferrari que está dentro de um campeonato extremamente competitivo e dependendo de um novo piloto. Ao invés de perder tempo com Badoer, poderia ter colocado outro piloto dentre tantos que estão acostumados com a temporada atual para não perder o almejado terceiro lugar. Esse foi um erro da equipe que caiu no colo do piloto, e de graça ainda.

Em suma, foi um texto legal e informativo.

Felipe disse...

Não me importa se é dificil guiar um F1 ou não. Qualquer um que seja chamado de piloto de F1 tem nível e capacidade para tal e com certeza está entre os grandes pilotos do mundo. Mas isso não faz do Badoer um heroi, ele pagou um mico mesmo, tomou um cacete de outros dois pilotos com kilometragem zero na F1 e com carros inferiores e isso não se justifica de forma alguma. Não creio que ele seja ruim, pois ele é piloto de F1, então é um dos bons... porem dos bons, ele é o pior.