terça-feira, 15 de setembro de 2009

Button x Barrichello: a disputa nos detalhes - 2

Dando prosseguimento à análise da disputa interna entre Rubens Barrichello e Jenson Button pelo campeonato de F1 de 2009, o site da BBC traz um artigo interessantíssimo de autoria do jornalista e comentarista de F1 Mark Hughes.

Coincidentemente, Hughes traz, com mais detalhes, a diferença entre a forma como ambos os pilotos da Brawn usam os freios e como isso se traduz em vantagem e desvantagem para cada um em cada circunstância.

Leitura obrigatória com tradução exclusiva do Splash-and-go para você.


Os pilotos da Red Bull, Sebastian Vettel e Mark Webber, estão agora efetivamente fora do páreo. Com quatro corridas para o fim do campeonato, eles não vão, realisticamente falando, tirar uma média de sete pontos por corrida do líder Button.

O inglês tem 14 pontos de vantagem sobre seu companheiro, mas, embora a matemática esteja a favor de Button, e ele parece ter saído agora de sua má fase, não é possível negar a atual forma do brasileiro.

Button foi dominante na primeira metade da temporada, vencendo seis corridas em um período em que seu companheiro não venceu nenhuma, mas Barrichello tem sido mais rápido desde então.

A pressão do campeonato quase certamente teve efeitos sobre Jenson enquanto ele procurava acertar o equilíbiro apropriado entre agressividade e conservadorismo em um carro que perdeu sua vantagem competitiva, deixando-o para proteger seus pontos no meio do pelotão.

Mas o balanço a favor de Barrichello vai além das diferentes pressões psicológicas entre o caçador e a caça. Há razões técnicas também.

Bem ao lado das demandas mentais, corrida de carros é uma incrível e complexa mistura de técnica e tecnologia e como as duas se relacionam.

Os carros da F1 estão constantemente se desenvolvendo durante a temporada, gerando mudanças na forma de guiá-lo, o que significa constante adaptação do piloto.

Há também características escondidas em um carro que só ficam evidentes em algumas circunstâncias e não outras e geralmente haverá uma diferença em quão prontamente os estilos de guiar de dois pilotos lidam com isso.

Nós falamos sobre isso este ano sobre a luta da Brawn para gerar a temperatura necessária aos pneus sempre que a superfície da pista está fria.

O estilo de guiar de Barrichello se adapta melhor a isso do que o de Button. Rubens em geral tem uma abordagem mais flexível e adaptável do que Button, que precisa de coisas bem específicas em um carro para ter sua melhor performance.

Button tem um feeling fantástico de quanto momento pode ser aplicado em uma curva e isso permite com que ele tenha que fazer muito pouca coisa ao pilotar - seus movimentos no acelerador e no volante em particular tendem a ser suaves e belamente coordenados.

Barrichello não é tão delicado. Ele tende a ´balançar´ mais o carro, improvisar com os controles para encontrar qualquer que seja o ritmo que funcione. Por causa disso, ele tende a induzir mais calor aos pneus.

Em um dia frio ou em uma pista que não exige muito dos pneus, Barrichello fica em melor forma que Button.

Houve um período, de Silverstone até a Alemanha e Hungria, em que o carro simplesmente não conseguia gerar a temperatura de pneus necessária - e de repente Barrichello se tornou o piloto mais rápido.

Houve um pouco deste problema em Spa, e de novo Button foi afetado mais fortemente do que Barrichello, mas em geral a temperatura dos pneus não tem sido um problema para a Brawn ultimamente.

Há outros fatores técnicos afetando a performance dos pilotos também.

"Eu tive problemas no início do ano com os freios," disse Rubens, "mas desde que o mudamos em Silverstone, estou bem mais feliz com eles. Tivemos desenvolvimentos no carro desde então e ele melhorou muito. Preciso admitir que minha performance melhorou devido a eles".

O material dos discos de freio foi mudado no meio da temporada, dando ao pedal de freio uma característica diferente.

Barrichello gosta de pisar no pedal imediatamente de forma bem decisiva. Button prefere um aumento de pressão mais progressivo sobre o pedal.

Estamos falando de nanosegundos de diferença aqui, mas a forma como isso afeta as dinâmicas do carro são significativas.

O material anterior ocasionalmente fazia o freio ficar um pouco hesitante quando Barrichello usava sua técnica - e isso tinha a ver com o quão progressivamente o disco de fibra de carbono esquentava quando os freios eram aplicados.

A técnica mais suave de Button significa que ele não tinha problemas com eles. O material utilizado desde Silverstone alcança temperatura operacional mais imediatamente, permitindo com que a técnica mais agressiva de Barrichello funcione.

Mas é ainda mais complexo do que isso porque embora Button seja mais progressivo na sua aplicação inicial dos freios, ele também tende a aplicar muita força no fim da frenagem.

Isso tem implicações no setup do carro, como Button explicou: "Pelo fato de eu estar usando o pedal com mais força, quando tento usar a altura do solo (ride-height) que Rubens usa, meu carro simplesmente perde aderência, então não consigo usar aquele setup".

Um ride-height mais baixo aumenta a performance aerodinâmica do carro e os engenheiros vão sempre tentar colocá-lo o mais baixo possível.

"Rubens tem uma compreensão fantástica do que faz um carro dar certo, melhor do que qualquer outro piloto que eu já vi", admitiu Button, "e isso muitas vezes me ajudou".

"Mas eu posso olhar seu setup e saber que algumas partes dele não vão funcionar para mim. Nós dois podemos escolher um pouco do que o outro está fazendo, mas basicamente eu tenho que seguir meu próprio caminho. Se eu apenas copiasse o setup dele, ele seria mais rápido. É assim que as coisas funcionam".

Em Monza, virtualmente não houve diferença entre eles. Barrichello classificou à frente de Button no grid por uma margem de apenas 15 milésimos de segundo. Mas essa posição de diferença no grid de largada foi o que se traduziu em uma diferença de posição na corrida - e a diferença entre primeiro e segundo lugares.

O que nos traz de volta ao campo psicológico. Com tanta diferença de pontos, tudo o que Barrichello pode fazer é atacar; ele não tem nada a perder.

Button sabe que pode simplesmente segui-lo. Enquanto ele estiver marcando pontos, será o campeão do mundo.

Tradução: Daniel Gomes

6 comentários:

Felipão disse...

Achei que ele abordou tudo de uma forma bastante positiva dos dois lados. No entanto, acho que o azar de Barrichello foi não ter conseguido um resultado de exceção melhor em Spa, quando o Button abandonou.

Não sei, mas analisando as nuances dos últimos anos, tenho a impressão que o Barrica siga andando na frente, mas com o Button fazendo feijão com arroz básico, que lhe valerá o título,,,

Marcelonso disse...

Daniel,

Muito interessante a matéria,bem didática.
Concordo com Felipão,Button vai marcar Barrichello de perto,será muito dificil reverter,pelo seu inicio de campeonato muito fraco em relação ao companheiro.

abraço

Anônimo disse...

Previsão: Rubens vice em 2009 e em 2010. Quatro vice-campeonatos o igualam a Sterling Moss, o maior entre os que nunca foram campeoes.

Bruno César da Silva disse...

quem sabe o button não se encontre em uma curva com o hamilton, webber, vettel,alonso, truli ou essas force india... é a minha torcida

Daniel Gomes disse...

Anônimo, esperamos todos que sua profecia não se concretize.

Bruno, é uma pena que tenhamos que torcer contra outros bons pilotos.

Eu particularmente gosto muito do Jenson e acho que ele merece o título, por isso me recuso a torcer contra ele (tá, de vez em quando eu me pego jogando uma zica nele, mas nunca dá certo).

De todo modo, não vai deixar de ser fantástico se Rubens vencer às custas de erros dos adversários na reta final!

Daniel Médici disse...

Em poucas letras, o Mark Hughes é duca. Conhecedor profundo da história do esporte, atualizado, escreve bem... Um dos meus jornalistas preferidos.