quarta-feira, 22 de abril de 2009

GP da China: ascensão e queda de Felipe Massa

Diz o ditado que a história que conhecemos não é cem por cento fiel à realidade porque quem a conta são sempre os vencedores dos grandes conflitos humanos. Pois bem, é válido podermos contar a história dos perdedores, sejam eles os de sempre, sejam eles os gigantes, como Felipe Massa.

O GP da China de Fórmula 1, terceira etapa da temporada 2009, ia ter início para o vice-campeão de 2008 com vários pontos contra. Senão, vejamos:
  1. não usaria o Kers;
  2. largaria atrás de seu companheiro de equipe;
  3. largaria na 13ª posição;
  4. largaria sob chuva cerrada, algo temerário pelo histórico do piloto;
  5. largaria com nenhum ponto na tabela;
  6. largaria com a pressão de, além de pontuar para si, pontuar para a Ferrari.
Estes pontos listados acima são apenas os mais óbvios. Isso sem contar o rebuliço causado pela troca de figuras importantes no staff da equipe e de péssimas atuações nas duas primeiras provas, o que causava ainda mais expectativas sobre performance do piloto. A pressão vermelha da Ferrari deve ser, sem dúvida, uma engolidora de vários incautos pilotos que já passaram por lá. Ivan Capelli, um promissor piloto à sua época, foi um deles, para ficar em exemplos mais conhecidos.

Enfim, a análise da corrida de Felipe Massa demonstra que, se a Ferrari acabou deixando o brasileiro na mão com o equipamento, dessa vez sua estratégia tinha tudo para dar certo, como estava dando até o momento de seu abandono, na 21ª volta. Mas Felipe Massa tem pelo menos 70% da responsabilidade sobre a jogada da Scuderia italiana.

Massa iniciou o GP da China mais pesado que todos à sua frente, com exceção de Heikki Kovalainen, que largou em 12º e pesou exatos sete quilos a mais que o carro nº 3 da Ferrari. Com 690 quilos, a Ferrari esperava fazer sua primeira e única parada após a 30ª volta. Nesse meio tempo, ficaria a cargo do piloto ganhar o máximo de posições possível e tirar proveito de sua estratégia. É claro que ninguém contava com a chuva, mas a Ferrari conseguiu pensar rápido e aproveitar as oito voltas com o Safety Car na pista e economizar o carro para o resto da corrida.

O brasileiro tratou de pisar fundo no acelerador do seu F60 e passou, logo na 9ª volta, Kovalainen. Massa se aproveitou também erros de outros pilotos, como Nick Heidfeld, que escapou na volta 10, para ir escalando as posições. Na volta 12, Buemi e Massa passaram Raikkonen e logo na 14ª volta aproveitaram o momento lento da Toyota de Trulli e passaram o italiano. Neste momento, Massa era o 6º colocado.

Nas voltas 14 e 15, Vettel e Webber fizeram seu primeiro pit-stop. Massa estava a 28 segundos do alemão, tempo suficiente para que ele voltasse à frente do brasileiro. Webber no entanto acabou saindo dos boxes atrás de Massa, que ganhou mais uma posição.

Na volta 19, foi a vez da Toro Rosso de Buemi ir para os boxes, e Massa ganhou mais uma posição. Por fim, Button e Barrichello também pararam na volta 19. O inglês voltou na frente, mas Barrichello ficou atrás e Massa se viu numa surpreendente terceira colocação com mais pelo menos 10 voltas de combustível no tanque.

A escalada de Massa pode ser vista na tabela a seguir, onde o número do carro do piloto foi grifado de vermelho:

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A média dos tempos de volta de Vettel, Button, Barrichello, Raikkonen e Massa diz muito sobre o ritmo de prova do brasileiro:


Já descontados os pit-stops dos pilotos nos tempos médios acima, o ritmo de Massa estava apenas um segundo mais lento que o líder Vettel, embora três segundos mais lento que Button e dois mais lento que Barrichello. Isso significa que, após o pit-stop das duas Brawn, Massa estaria numa posição confortável para brigar pelo menos com Barrichello por posições, pois ambos teriam de fazer apenas mais um pit-stop para completarem a corrida. O brasileiro conseguiu inclusive fazer a melhor volta entre os cinco pilotos no 16º giro, conforme tabela abaixo:

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Na tabela acima é possível ver também onde exatamente Rubens Barrichello perdeu a posição para Jenson Button. A TV não mostrou, mas a volta 11 de Rubinho foi sete segundos mais lenta do que a de Button, o que com certeza explica a perda de posição do brasileiro e, consequentemente, a perda da chance de lutar pelo pódio e de chegar à frente do companheiro pela primeira vez em 2009.

Quanto à Massa, dava tudo certo para ele até a pane elétrica de seu carro, que o obrigou a jogar fora mais uma oportunidade de, quem sabe, finalmente iniciar o campeonato. As duas provas em que não pontuou ano passado já viraram boas recordações diante do novo cenário que se desenhou este ano na Fórmula 1. Resta o consolo de saber que o brasileiro tem superado Raikkonen na pista, ainda que as classificações não tenham contado essa mesma história.

Espera-se que a Ferrari use todos os dados e conhecimentos adquiridos nos testes de inverno no Bahrein para poder pontuar pela primeira vez este ano. Felipe Massa venceu lá nas duas últimas temporadas. Há quem diga que apostar em sua vitória este ano é uma estupidez, mas o fato é que o combo Ferrari x Massa deve ser mais competitivo por lá.

A ver.

6 comentários:

Fábio Andrade disse...

O que mais me satisfez em relação ao Felipe foi ver que aquela conversa de ele ser ruim de chuva era só história. Ok, ele ainda deve uma corrida memorável debaixo d'água, mas seu desempenho não é nada mal, como as pessoas insistem em falar. O povo sempre prefere se lembrar dos vexames, como em Silverstone no ano passado.

Dan G. disse...

Fábio, comentei isso em um fórum gringo e a maioria do pessoal argumentou que comparar Massa com Hamilton, por exemplo, que nesta corrida foi um fiasco, embora tenha feito boas ultrapassagens (tá certo que três contra o mesmo lento Raikkonen), é comparar maçã com mamão.

Isso porque Massa em Silverstone tinha um dos dois melhores carros do campeonato e mesmo assim rodou várias vezes SEM ganhar posições. Terminou em último.

Hamilton na China foi o contrário. Rodou muito sim, mas com um dos piores carros (pouco downforce), mas fez várias ultrapassagens e acabou pontuando para ele e sua equipe.

Quer dizer, existe de fato uma diferença entre as duas performances, mas Massa realmente melhorou muito desde então.

O campeonato tende a melhorar bastante agora, se é que isso é possível.

hegomo disse...

Excelente materia, como já te disse, estava torcendo por este tema.
Que tal alguma proxima sobre Vettel e RBR? fica o desafio.
Boa sorte, e novamente parabens

Dan G. disse...

Valeu Henrique. Se tiver algo interessante nas entrelinhas do "Fenômeno Vettel" , vou mostrar!

Hugo Becker disse...

Bom, vamos lá. Acredito no talento de Felipe Massa desde que ele estreou na Fórmula-1, em 2002. Desde a sua estreia na Sauber até a sua segunda vitória (Interlagos 2006), aguentei todos os tipos de piada por torcer por um piloto pé pesado mas "instável", "inconstante", "sem futuro". Logo, obviamente me vi recompensado quando o brasileiro disputou os títulos de 2007 e de 2008 - este de forma soberana.

Antes do último GP do Brasil, lamentava pelo seguinte: caso Massa não conseguisse o título (o que parecia mais provável), aquela provavelmente seria a sua única grande chance de levantar a taça e tirar o país da fila de quase 20 anos sem títulos. Senão, vejamos: Alonso se debatendo com a Renault, Räikkönen em sono profundo, Kubica ainda com um carro incapaz de enfileirar vitórias, Hamilton sendo um rival igualmente sem títulos... uma combinação rara envolvendo tanta gente boa.

Pois bem, Massa ficou com o vice-campeonato, mas a forma dramática como o título foi decidido deixou o brasileiro da Ferrari mais forte e, de cara, talvez o principal favorito ao título de 2009.

Aí surgem os tais difusores double-deckers, Brawn GP e Red Bull voando baixo, a Ferrari erra feio a mão...

Duas conclusões:

1) Talvez, a teoria de que 2008 seria provavelmente a única grande chance de Massa levar o título, agora pareça correta...

2) Algo que é realmente frustrante, já que é evidente que o brasileiro vive o auge de sua pilotagem em quase todos os aspectos - vide GP da China, bem exemplificado neste post - e carrega sozinho o desenvolvimento da problemática F60. Até por que, se fosse Räikkönen a desenvolver o carro, provavelmente a equipe estivesse ainda mais atrás do que já está...

Abraço!

Dan G. disse...

Hugo, eu entendo sua angústia, mas não diria que Massa não terá mais chances.

Creio que, caso a Ferrari realmente tenha perdido este campeonato de vez, ano que vem ela virá com um carro muito forte e eu creio muito mais na permanência de Massa para 2010 do que de Raikkonen. Diria até que o finlandês pode vir a pendurar o capacete ao final desse ano.

De todo modo, torço para que Massa se recupere e, de preferência, destrua Kimi dentro da pista.

O resto será consequencia.