quarta-feira, 18 de novembro de 2009

F1: distorção de valores

Inimaginável. Essa é a palavra que define o ano de 2009 para a F1 como um todo.

Muitos textos e bate-papos sobre a categoria começaram este ano com o bom e velho "Ninguém imaginava...", quando a Honda saiu, quando a Brawn foi criada, quando Barrichello voltou dos mortos, quando a equipe dominou os treinos de inverno, fez pole e venceu na Austrália.

Quando a Ferrari e McLaren se deram mal, quando as regras foram postas em dúvida, quando ameaçaram acabar com a F1, quando ameaçaram criar uma nova categoria, quando a BMW anunciou sua saída, quando assinaram o pacto de concórdia, quando Massa sofreu um grave acidente, quando Hamilton venceu uma corrida, quando Raikkonen venceu uma corrida.

Quando Badoer e depois Fisichella substituíram Massa, quando Schumacher quase substituiu Massa, quando Fisichella marcou a pole position com uma Force India, quando descobriram que Nelsinho Piquet bateu de propósito para Alonso vencer, quando baniram Briatore do esporte. E ninguém imaginava (quer dizer, imaginava, mas não se sabia quando) que Fernando Alonso finalmente iria para a Ferrari liberando Raikkonen para procurar outra equipe.

Quando Rubinho fez uma pole espetacular em Interlagos com Button largando em 14º, quando finalmente Button e a Brawn GP venceram o campeonato, quando Abu Dhabi estreou com pompa, quando Kobayashi deu show e quando a Toyota resolveu sair da F1 na esteira da BMW, deixando Glock, Trulli e Kobayashi a ver navios.

Ninguém imaginava nada disso há um ano.

Mas ninguém imaginava mais ainda que a Brawn iria nascer e morrer em apenas oito meses. E que a Mercedes GP seria criada. E que Rubens Barrichello pilotaria pela velha Williams. E que Jenson Button sairia da equipe que lhe deu um título incrível para pilotar pela poderosa McLaren ao lado de Lewis Hamilton em 2010.

Mas acima de tudo, ninguém imaginava que Kimi Raikkonen não estaria no grid em 2010.

A temporada de 2010 promete ser realmente uma das mais incríveis dos últimos 20 anos, com quatro equipes com reais chances de disputar as primeiras posições, pilotos de ponta nas quatro delas e uma real busca pela supremacia depois de uma temporada totalmente atípica.

Mas a F1 sem Kimi Raikkonen?

Que tipo de F1 é essa que expurga de seus bólidos o último piloto à moda antiga? Que tipo de categoria é essa que mantém um de seus melhores pilotos longe do grid? Que tipo de automobilismo é esse que deixa de lado o piloto que tem uma das três maiores comunidades de fãs do mundo?

O fã de Kimi Raikkonen não torce pelo piloto, mas sim por um estilo de vida. Por uma atitude. Pelo que é autêntico.

O fã de Kimi não busca tanto o resultado, mas sim o que se vê na pista. O finlandês cravou mais voltas mais rápidas que qualquer piloto no atual grid. É o piloto mais destemido da F1, o mais tranquilo, o mais relaxado.

E ainda assim pilota no limite todas as vezes, corrida após corrida, atacando as curvas como se seu carro fosse infalível, como se a aderência aerodinâmica fosse parte integrante de si mesmo.

Não importa se em 15º, 7º ou primeiro. A melhor volta quase sempre vem, a pressão sobre o pedal do acelerador, o trabalho incansável, seja no melhor carro (McLaren 2005, Ferrari 2007 e 2008), seja no pior carro (Sauber 2001, Ferrari 2009).

Kimi Raikkonen não é um piloto. É um prolífico artista da velocidade. Uma celebridade e uma personalidade que não se apoia em máscaras, mas sim em ações e atitudes. O suposto desinteresse do finlandês quanto a tudo na verdade é a maior prova de que ele se interessa apenas pelo que importa: o carro, a pista e a velocidade. Precisa de algo mais?

É por isso que a F1 em 2010 não será a temporada mais incrível dos últimos 20 anos. Será ótima, será eletrizante, recheada de disputas por poder nos bastidores. Mas será apenas um filme sem seu protagonista. Excepcionalmente, o Oscar de melhor ator não será entregue no fim da temporada do ano que vem porque não haverá melhor ator.

Haverá apenas efeitos especiais, e desses os fãs da F1 já estão de saco cheio.

Em 2010, o Iceman vai congelar outras paragens.



5 comentários:

Daniel Médici disse...

Somos dois fãs do Kimi por aqui então!

Uma pena que a F1 tenha expurgado um piloto que oxigena esse mundinho vip e asfixiante do paddock, com suas falas calculadas, seus bons mocismos, seus 'public relations' e elogios respeitosos.

Não podemos falar da última década da categoria sem mencionar Raikkonen. Como não lembrarmos das curvas que negociava melhor que ninguém em Spa? Ou daquele vendaval que sacudiu Suzuka em 2005? Ou de suas poles em Hockenheim, 2005, além dessa de Silverstone?

Infelizmente Kimi nasceu tarde demais. Ele faz parte de outra estirpe, de uma época em que um piloto não tinha nada em comum com um analista de sistemas. De uma época em que os treinos de sábado não definiam nada, muito menos o vencedor. E de uma época em que o perigo era afrodisíaco.

Kimi não merece essa F1 de pistas simplistas e de botões nos volantes.

Fábio Andrade disse...

Que bela forma de homenagear seu ídolo, Daniel.

Eu só fui descobrir como gostava do piloto Kimi Raikkonen quando a Ferrari anunciou que o demitiria para contratar o Alonso. Mesmo como torcedor da equipe, não concordei (e continuo a não concordar) com a forma com que chutaram o campeão de 2007 de Maranello em favor de um outro que chega com a pretensa missão de repetir o que Schumacher fez pelos boxes rossos.

Raikkonen não prometeu nada e deu aos torcedores da Ferrari presentes que vão além de um título ou de 7 vitórias e não sei quantas voltas mais rápidas. Ele trouxe autenticidade ao universo celebrity da equipe mais irritantemente celebrity do grid.

Acho que os tiffosi típicos só vão entender isso daqui a algum tempo, quando as coisas se assentarem.

Anônimo disse...

Excelente texto.
Mas parece que o assunto ainda não está fechado entre o Kimi e a Brawn para bem do desporto puro.

Ernesto Sousa

Eduardo M disse...

Sempre achei as analises desse blog acima dos demais.
Agora, raikkonem piloto a moda antiga?
Que moda é essa de um cara que SÓ CORRE em carros de ponta?
E o salario q esse sujeito negou a receber da mclaren?
Antigamente os pilotos corriam de graça e em qqer condição.
Ahhh acordemmm vai,
a ferrari fez o certo, alonso e massa sao mais pilotos e mais dedicados à equipe.
Raikkonem conseguiu apagar toda sua historia na f1 na minha opiniao.

Daniel Gomes disse...

Eduardo, ainda bem que podemos todos divergir em nossas opiniões, não é mesmo?

Obrigado pelo seu comentário!