terça-feira, 26 de maio de 2009

GP de Mônaco: a cruzada silenciosa de Alonso

Considerado por muitos o melhor piloto do grid na atualidade, o espanhol Fernando Alonso é um guerreiro. Com a paciência de quem se sabe um grande campeão, o asturiano luta segundo a segundo, ponto a ponto, corrida a corrida, contra os fantasmas que assolam a garagem da Renault.

Embora nunca deixado de lado por nenhum fã da F1 que se preze, o bicampeão mundial quase sempre faz corridas discretas, é muito realista quanto à sua atual situação e devagar vai coletando pontos valiosos para si e sua equipe sem grande estardalhaço.

Foi assim em 2008, quando, numa ascendente digna dos gênios incansáveis, saiu do pelotão do meio no GP da Alemanha para, a partir do GP da Hungria, vencer duas provas, conseguir um segundo lugar e quatro quartos lugares amealhando nada menos que 48 pontos de 80 possíveis. Superou inclusive Felipe Massa que, no mesmo período, venceu três provas e teve um segundo lugar.

É assim, comendo quieto como um bom mineiro faria, que Alonso flerta com a Ferrari e espera pacientemente seu retorno à esfera dos campeões. E mesmo passando dificuldades, mesmo se irritando com seu carro, mesmo nunca tendo chances reais de vitória, o espanhol guia sempre como se fosse seu último GP.

Em Mônaco, com a corrida já definida, com os vencedores vencendo e os perdedores perdidos, Fernando Alonso deu um show de consistência e velocidade.

Não que tenha sido mais rápido que todos os outros, até porque, muitos, como Button, Raikkonen e Massa, já haviam tirado o pé, mas mesmo assim o bicampeão fez voltas rápidas em praticamente todas as últimas 25 voltas da corrida.


É difícil saber se queria alcançar Rosberg, se queria provar algo para si mesmo, mas o certo é que Alonso não se deixou abater por mais um sétimo lugar. Pisou fundo no acelerador do seu bólido e ficou ainda mais íntimo dos guard-rails do principado, algo temeroso dado o desequilíbrio de sua Renault.

Na tabela abaixo, você verá como Alonso dominou os tempos após a parada de Giancarlo Fisichella, que até então o estava impedindo de fazer tempos melhores no estreito traçado monegasco.

Na tabela, os tempos de Alonso são comparados aos tempos de Raikkonen e Massa, que estavam imprimindo um ritmo forte até aquele ponto, Nico Rosberg, com quem Alonso disputava diretamente a sexta posição, e Rubens Barrichello, que mesmo com a corrida decidida a favor de Button, não chegou a tirar o pé como o inglês fez.

Das 23 voltas dadas no stint final da corrida após a segunda parada de Barrichello, das duas Ferrari e da Williams de Rosberg, Alonso fez a melhor volta deste grupo em 16 delas, sendo que duas correspondem ao momento em que o espanhol fez seu pit-stop. Ou seja, efetivamente, foram 21 voltas de corrida limpa na pista, quando o piloto fez ainda sua melhor volta na prova.

A performance de Alonso permitiu que, até o momento em que fizesse seu pit-stop na volta 66, recuperasse quase 10 segundos em relação a Barrichello e 12 em relação a Kimi Raikkonen. Tão forte era o ritmo impresso pelo espanhol que, a duas voltas da bandeirada, sua diferença para Rosberg era de apenas dois segundos, sendo que na volta 70, era de 8,4 segundos. Alonso tirou uma média de 1,2 segundos por volta!

Entretanto, descontando estratégias que poderiam ter levado Alonso a uma posição mais adiantada na linha de chegada, a análise do gráfico do ranking de melhores médias de tempo a cada volta mostra que o espanhol decaiu durante a corrida justamente por causa do fato de ter largado mais pesado para ter dois stints iniciais muito longos (28 e 38 voltas respectivamente).

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No gráfico, é interessante notar também como o piloto que mais evoluiu durante a corrida foi Rubens Barrichello, mas muito pelo fato de seu primeiro stint ter sido prejudicado pelo graining dos pneus traseiros causado, segundo ele e Ross Brawn, por ter seguido Button de perto.

Jenson Button e Mark Webber também aparecem em duas situações atípicas. O inglês perdeu rendimento no meio da prova, enquanto o australiano manteve a melhor média de tempos durante incríveis 44 voltas, mesmo chegando em quinto lugar no final. Uma performance incrível de Webber, que vem virando rotina em suas provas.

Já Button teve queda em seu rendimento, mas muito em função de seu "controle de risco". Quando a corrida se aproximava do fim, Button fez uma rápida escalada nas médias de tempo e ocupou o primeiro lugar de novo, que lhe é de direito aliás.

De todo modo, como é claro desde sempre, Mônaco não é referência para nada em termos de performance média de campeonato. Na próxima prova em Istambul, na Turquia, os carros da Red Bull devem ter boa performance pois as longas curvas de média para alta velocidade são amigas da equipe energética. Brawn será sempre favorita e as Ferrari vêm tentar sua primeira vitória do ano em um traçado onde os passos para o primeiro lugar no pódio são íntimos da Scuderia italiana.

Fernando Alonso vai continuar até o fim do ano como franco atirador. Se houver uma oportunidade, o espanhol vai estar lá para aproveitá-la. Enquanto isso não acontece, o que resta é o prazer de ver um grande piloto domar um carro medíocre com a tenacidade incansável que só os grandes campeões trazem consigo.

Ayrton Senna que o diga.

7 comentários:

Julio Cezar disse...

Mas será que ele vai aguentar até que surja uma nova oportunidade de ser campeão?

Dan G. disse...

Julio, não creio que essa oportunidade esteja tão distante assim. Alonso vale seu peso em ouro no grid. Ele sabe disso e todas as equipes sabem disso. Resta saber se quem roda é Raikkonen ou Massa, pq a Ferrari parece determinada a trazê-lo para Maranello.

Ingryd Lamas disse...

Excelente texto, excelente análise, não tenho nada pra acrescentar, só pra concordar.
Alonso é o tipo de piloto que estará sempre pronto para ganhar, nem que seja a oitava colocação, o espanhol sabe bem o que faz.


bjoooos

Dan G. disse...

Obrigado Ingryd!

Aproveito e agradeço sua menção especial ao meu blog na entrevista com o Speeder_76. Muito obrigado pelo apoio!

Um beijo!!!

Hugo Becker disse...

Ótima análise. E se sou torcedor confesso do Massa, sou fã confesso do Alonso. É mais ou menos assim: você torce para o Villareal, mas sabe que o Barcelona tem o melhor time do mundo e não há como não se encantar e se apaixonar por seu futebol. É o meu caso com Massa e Alonso (ainda mais com uma foto como a primeira, haha), desde sua pole position na Malásia em 2003.

Só lamento pq pra mim, sim, Alonso é o melhor do grid, disparado. É um cara que poderia chegar razoavelmente perto dos números de Senna, e talvez até chegue. É um campeão legítimo, um campeão nobre, um campeão que não deixa sombra pra dúvidas como talvez Hakkinen, Hill e Villeneuve. Um piloto completo. Mas guiando essas carroças, perde tempo de carreira, perde vitórias, perde títulos...

Schumacher, o genial Schumacher, perdeu o título de 97 para o outsider Villeneuve. A história mostrou que o título de 97 foi um "título jogado fora".

Só espero que a história não mostre que o título de Hamilton em 08 nos cause a mesma impressão...

Ótimo trabalho, como sempre, Dan.

Abraço

Dan G. disse...

Hugo, obrigado por sempre dar seus pareceres por aqui.

Só vou discordar de uma coisa que você falou.

Mika Hakkinen, embora tenha demorado a emplacar na McLaren na década de 90, quando venceu seus campeonatos, venceu de forma soberana.

Não é à toa que Schumacher já disse ser o finlandês o único piloto a quem respeitava e considerava seu grande adversário no grid.

Não duvido que, no fundo, Schumacher sentiu o mesmo que Senna quando Hakkinen resolveu se retirar da F1.

Senna lamentou a saída de Prost porque era o francês sua referência. Sem Rakkinen, Schumacher perdeu a referência e se tornou um grande campeão praticamente só na pista.

Quem dera ao nosso Rubinho ser páreo para o alemão... mas ele nunca foi. O único que deu trabalho genuino foi Hakkinen.

E olha que Damon Hill também teve seus méritos, mas a verdade é que a Williams em 96 e 97 acertou o "soft spot" e realmente levou dois pilotos considerados "azarões" ao troféu do campeonato.

Não é à toa que foram exatamente Hill e Villeneuve que você citou como pilotos com "sombra de dúvida" sobre seu talento e capacidade.

Enfim, eu torço para que Alonso volte a ser relevante na cabeça do pelotão, como foi em 2007 num campeonato belíssimo, embora estragado pelo episódio da espionagem.

Um abraço!

Hugo Becker disse...

Ah sim, concordo com vc que os títulos do Hakkinen foram conquistados de forma soberana, mas na prática, considero o Damon Hill inspirado melhor do que o Hakkinen. Vejamos: Hill era razoavelmente bom em pista seca e excelente na chuva; era regularmente rápido em classificação e raramente perdia uma vitória qdo disparava na ponta. Sua temporada desastrosa foi em 95, mas entre 96 e 98 ele teve uma pilotagem nobre - não à toa quase venceu com a Arrows (!) e deu a primeira vitória à Jordan.

Hakkinen também era fantástico em voltas lançadas, mas era constrangedor na chuva e muitas vezes cometeu erros idiotas quando liderava a prova - com mais frequência do que Hill. No entanto, pilotava de uma forma muito mais elegante e limpa do que o inglês.

Villeneuve foi realmente um azarão, um piloto que pegou uma fase sensacional de sorte e velocidade com um carro quase perfeito e levou o título. Exceção total, porque não fez mais nada de relevante na carreira quando se viu com carros problemáticos, e até com carros médios, como a Renault de 2004 e a BMW de 2006.

Agora vamos a Alonso, Schumacher e Senna, só pra não estender ainda mais a coisa: Ótimos em voltas lançadas, ótimos na chuva, ótimos em ritmo de corrida, raríssimos erros quando lideravam a prova (tão raros que são lembrados com destaque) e acima de tudo, pilotos com personalidade e gênio forte, pilotos ácidos e "durões", ao contrário do gentleman Hakkinen e do bon-vivant Hill.

Sei lá, me identifico mais com esses três, por questões pessoais e técnicas. Mas a discussão sobre Hill e Hakkinen pode ir longe... só Villeneuve destoa como realmente um azarão.

Esses debates são muito bons, cara. Raramente debato F-1 pq não são muitos os que se interessam...

abraço!